O Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais (NEES) participou, entre os dias 8 e 11 de setembro, da Digital Learning Week 2026 – Education in the age of AI: Facts, Frictions, Frontiers (Educação na era da IA: Fatos, Atritos, Fronteiras), realizada na sede da Unesco, em Paris. Representaram o NEES os pesquisadores Andressa da Silveira, Janaína Xisto e Ranilson Paiva, que apresentaram um artigo sobre o VALIDE, plataforma tecnológica desenvolvida pelo Núcleo para apoiar, com o uso de inteligência artificial, a análise de critérios editoriais de obras submetidas a um programa federal de distribui livros didáticos para alunos e professores de escolas públicas.
Realizada anualmente pela Unesco, a Digital Learning Week reúne representantes globais de governos, especialistas, pesquisadores, educadores, estudantes e empresas de tecnologia para discutir os impactos, desafios e possibilidades das tecnologias digitais na educação. Em 2026, o encontro reuniu mais de 1.500 participantes presencialmente em Paris, além de milhares de participantes online, em uma programação dedicada aos caminhos para uma integração responsável da inteligência artificial nos sistemas educacionais.
A participação do NEES ocorreu em um momento de intenso debate internacional sobre como incorporar a inteligência artificial à educação de forma ética, segura, transparente e centrada nas pessoas. No primeiro dia do evento, a Unesco apresentou uma Declaração Ministerial que estabelece prioridades comuns para que os termos e condições de integração da IA à educação sejam definidos com base em governança deliberativa, responsabilização pública e respeito aos direitos dos estudantes e dos professores.
“É um evento muito significativo porque não trata apenas de tecnologia. O foco é balizar políticas públicas e estabelecer diretrizes para um uso apropriado, consciente, justo, ético, transparente e seguro da inteligência artificial na educação”, destacou Ranilson Paiva. Segundo o pesquisador, a diversidade de participantes, com representantes de diferentes países, regiões e setores, reforça a dimensão global do debate sobre o uso da IA nos mais diversos sistemas educacionais.
“O encontro da Unesco reúne um público especializado de pesquisadores, gestores e especialistas de diferentes países, com capacidade de aprofundar o debate sobre os caminhos da inteligência artificial na educação. Participar desse diálogo é uma oportunidade de dar visibilidade internacional à nossa experiência brasileira com uma política pública de longa trajetória, como a de livros didáticos, e compartilhar o conhecimento produzido a partir de seus desafios concretos”, comentou o confundador do NEES Alan Pedro da Silva e que também é autor do artigo apresentado na França.







IA para apoiar o trabalho humano
A plataforma VALIDE utiliza inteligência artificial para apoiar analistas responsáveis pela avaliação de obras didáticas, contribuindo na tarefa deles de avaliação dos critérios editoriais desses livros. Esses critérios, estabelecidos nos editais, devem ser observados pelas editoras.
O trabalho, quando realizado exclusivamente de forma manual, é complexo e exige a análise detalhada de um grande volume de obras, páginas e critérios. O VALIDE foi desenvolvido para tornar esse processo mais eficiente, permitindo que a inteligência artificial complemente a capacidade cognitiva humana na identificação de possíveis não conformidades, mantendo a decisão final sob responsabilidade do analista.
“Nosso estudo mostrou como a IA pode apoiar o trabalho dos profissionais envolvidos nessa política, preservando a avaliação e a decisão humanas. Essa experiência contribui para discutir como o Brasil pode utilizar a IA de forma responsável em suas políticas públicas, considerando as necessidades da população e as particularidades de cada contexto”, enfatizou Alan.
“A lógica que usamos na plataforma está alinhada a princípios que vêm sendo discutidos internacionalmente para o uso responsável da IA na educação, como transparência, explicabilidade, responsabilização, segurança dos dados e supervisão humana”, explica Ranilson. “A IA descobre e mostra; o analista avalia e diz se o que foi identificado pela IA, de fato, é uma não conformidade”, ressalta o pesquisador.
Essa combinação entre tecnologia e decisão humana é um dos pontos centrais da experiência apresentada pelo NEES em Paris. A ferramenta não substitui o trabalho dos especialistas: ela amplia sua capacidade de análise, reduz tarefas repetitivas e permite que os profissionais concentrem seus esforços nas etapas que dependem de avaliação humana.
Ganho de eficiência e qualidade
O artigo do NEES reúne resultados de um experimento de grande escala realizado para avaliar o desempenho do VALIDE em comparação com a análise manual. O estudo utilizou um ensaio clínico randomizado (Randomized Controlled Trial – RCT), considerado um desenho de referência para esse tipo de avaliação (padrão-ouro).
Os resultados mostraram que o uso do VALIDE tornou o processo 2,7 vezes mais rápido em comparação com a atuação puramente manual. A ferramenta também identificou 61% mais não conformidades nas obras analisadas.
A identificação dessas não conformidades contribui diretamente para a qualidade final dos livros e dos materiais didáticos. Quando um problema é identificado, a obra deve retornar à editora para correção antes de avançar no processo de avaliação, reduzindo a possibilidade de que problemas previstos nos critérios do edital permaneçam nas versões finais.
O estudo também avaliou a confiabilidade dos resultados gerados pela inteligência artificial. As ocorrências identificadas pelo sistema foram verificadas por uma equipe de garantia da qualidade (Quality Assurance). Segundo os resultados apresentados, aproximadamente 1,5% das ocorrências identificadas pela IA foram consideradas falsos positivos após a avaliação humana.
Para Ranilson, os resultados mostram a relevância e estabilidade da tecnologia para enfrentar uma questão prática dos processos de avaliação em larga escala: a enorme quantidade de informações que precisa ser analisada em um período limitado. “Os analistas têm um determinado número de dias para analisar uma grande quantidade de obras, e cada obra tem muitas páginas, e, para cada página, é preciso observar um grande número de critérios. Essa é a dificuldade que o humano enfrenta ao realizar essa tarefa manualmente”, enfatiza Ranilson.
Ciência e políticas públicas
A apresentação do VALIDE coloca uma experiência desenvolvida no Brasil no centro de uma discussão que ultrapassa fronteiras: como utilizar a inteligência artificial para ampliar a capacidade dos sistemas educacionais sem abrir mão da supervisão humana, da segurança e da responsabilidade pública.
O caso do VALIDE também evidencia uma dimensão estratégica do trabalho desenvolvido pelo NEES: utilizar tecnologias avançadas não como um fim em si mesmas, mas como instrumentos para enfrentar desafios reais da gestão pública. “A gente está mostrando uma aplicação real de inteligência artificial em uma política pública de grande escala, mas seguindo princípios que estão sendo discutidos mundialmente”, resume Ranilson.