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Pesquisa do NEES revela novos caminhos para aprimorar o PNLD

27 de fevereiro de 2026

Mais de 240 milhões de livros estão sendo entregues, neste início de ano letivo, a milhares de alunos de escolas públicas do Brasil através do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Educação (MEC). Um estudo realizado recentemente pelo Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais (NEES), com a participação de gestores escolares de todo o País, vai contribuir para identificar fatores institucionais que influenciam discrepâncias entre a previsão e a demanda real de livros. Assim, permitirá um planejamento mais preciso e eficiente, com subsídios importantes para melhorar o planejamento, a distribuição e a gestão dos materiais didáticos do PNLD.

A pesquisa, realizada ano passado, aponta que a previsão do número de estudantes por escola precisa ir além da simples análise de séries históricas. O estudo demonstra que decisões operacionais adotadas pelas próprias unidades de ensino, como abertura, junção ou divisão de turmas, exercem influência direta sobre a matrícula, impactando tanto o planejamento educacional quanto a logística de distribuição de materiais didáticos. O levantamento contou com respostas de gestores de 1.824 escolas de todo o Brasil, com predominância das redes municipal e estadual e participação residual de instituições federais (0,05%).

“Houve um grande esforço para garantir que os contatos com as escolas fossem válidos e atualizados. Isso foi essencial para a qualidade dos dados coletados. Tivemos muitos desafios operacionais no início da pesquisa diante de informações de telefones e e-mails das escolas desatualizados, especialmente em regiões com menor conectividade”, comenta o pesquisador do NEES Romildo Escarpini, que liderou a coleta de dados. “Esses obstáculos foram superados com o apoio de redes institucionais e o cruzamento de bases públicas e externas”, destaca Romildo. Articulações com Secretarias Municipais e Estaduais de Educação, além da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), foram essenciais nessa etapa da pesquisa. 

RESULTADOS

De acordo com o estudo do NEES, modelos tradicionais baseados exclusivamente nos dados do Censo Escolar partem do pressuposto de que o comportamento futuro das matrículas tende a repetir padrões do passado. No entanto, a análise revelou que esse método não captura mudanças estruturais no funcionamento das escolas, o que pode gerar distorções nas projeções e, consequentemente, no planejamento das políticas públicas.  “Esses dados revelam nuances que o Censo Escolar, por si só, não captura. Eles ajudam a explicar por que, às vezes, sobram livros em umas escolas e faltam em outras”, observa o vice-coordenador do projeto e pesquisador do NEES Nicholas Cruz.

O estudo identificou variações sistemáticas no tamanho das turmas conforme a localização, a esfera administrativa e a etapa de ensino. Escolas situadas em áreas urbanas, por exemplo, operam com maior número de alunos por sala, enquanto instituições rurais apresentam turmas menos numerosas. Além disso, há uma mudança estrutural significativa entre os anos iniciais e finais do Ensino Fundamental, seguida de relativa estabilização no Ensino Médio. Esses padrões, segundo a pesquisa, refletem mais a organização pedagógica e a capacidade física das escolas do que a dinâmica demográfica da população.

Outro achado relevante é que instituições com históricos semelhantes de matrícula podem apresentar trajetórias futuras bastante distintas, dependendo das decisões administrativas adotadas ao longo do tempo. Como o Censo Escolar registra apenas o resultado final dessas escolhas, projeções baseadas exclusivamente em extrapolações temporais tendem a acumular erros.

MODELO HÍBRIDO

Para enfrentar esse desafio, a equipe do NEES propõe um modelo híbrido de previsão, que combina dados históricos do Censo Escolar com variáveis estruturais que representam diretamente o funcionamento das escolas, como número de turmas, ocupação média das salas e regularidade do fluxo escolar. Essa abordagem permite estimar não apenas quantos alunos estavam matriculados, mas também a real capacidade de atendimento de cada instituição.

Segundo os pesquisadores, essa metodologia tem impacto direto no planejamento da distribuição de livros didáticos do PNLD. “Os desvios observados entre a quantidade prevista e a demanda real não decorrem apenas de falhas logísticas, mas principalmente da limitação de modelos agregados em captar reorganizações internas nas escolas. Ao incorporar variáveis operacionais, a tendência é reduzir discrepâncias, aumentando a eficiência e a precisão no envio dos materiais”, explica o coordenador da pesquisa e pesquisador do NEES Bruno Pimentel.

O estudo conclui que a previsão do alunado deve ser tratada como um problema de modelagem institucional, e não apenas demográfica. A integração entre séries históricas e indicadores estruturais amplia a precisão das estimativas, fortalece o planejamento educacional e contribui para uma melhor gestão dos recursos públicos, especialmente no âmbito do PNLD.

O PROGRAMA

O NEES participa de sete etapas do PNLD, uma das ações governamentais de maior alcance do Brasil e que completará 90 anos em 2027. O time do NEES desenvolve soluções computacionais com uso de inteligência artificial que melhoram a eficiência do PNLD. São iniciativas que abrangem múltiplas áreas, incluindo cadastro de materiais, avaliação pedagógica, seleção de trabalhos, qualificação, acessibilidade e distribuição dos livros e materiais.

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